“E a jangada voltou só”
“E a jangada voltou só”
Paiva Netto
Nas belas paragens de Itapuã, na Bahia, vê-se ao longe uma jangada. Silenciosa, vai sumindo no horizonte, conduzida por um simpático ancião de cabeça toda branca, sereno, a cantar uma melodia que parece acompanhar o ritmo das ondas:
“A jangada saiu/ Com Chico Ferreira/ E Bento…/ A jangada voltou só… “Com certeza foi, lá fora,/ algum pé-de-vento…/ A jangada voltou só…/ Chico era o boi do rancho/ Nas festas de Natá/ Não se ensaiava o rancho/ Sem com Chico se contá./ E agora que não tem Chico/ Que graça que pode ter?.../ Se Chico foi na jangada…/ E a jangada voltou só… “A jangada saiu… “Bento cantando modas/ Muita figura fez/ Bento tinha bom peito/ E pra cantar não tinha vez/ As moças de Jaguaripe/ Choraram de fazer dó/ Seu Bento foi na jangada/ E a jangada voltou só…”. Essa é uma das imagens que sempre na alma guardarei do famoso cantor, poeta, compositor e violonista baiano Dorival Caymmi, que voltou à pátria espiritual no último 16 de agosto, na cidade do Rio de Janeiro. Mais vivo do que nunca, pois os mortos não morrem, passa a fazer parte de um time de estrelas que já contava com a presença de Jorge Amado, Carmen Miranda, Tom Jobim, Cartola, Herivelto Martins e Dalva de Oliveira (saudosos pais do amigo Pery Ribeiro), além de tantos outros valores inestimáveis da cultura brasileira. Aliás, Pery e também Nonato Buzar estiveram no São João Batista, para homenagear o grande ícone da música nacional.Vidas cruzadas Em diversas oportunidades, inclusive neste espaço, comentei o fato de esse extraordinário músico ter sido decisivo na aproximação de meus pais, escolhido por eles como padrinho de casamento. Passei a infância e a mocidade ouvindo e cantando Caymmi lá em casa. A dedicatória que recebi da amável Stella, neta dele, em sua obra “Dorival Caymmi – O mar e o tempo”, fala-nos dessa amizade: “Querido Paiva Netto, a história de teu pai se cruza com a de meu avô. Que você curta muito o meu livro, beijos, Stella”. Ainda nessa biografia, há o seguinte registro da autora: “(...) o jornalista e radialista Alziro Zarur (1914-1979) – futuro fundador da Legião da Boa Vontade – escreveu uma nota em que afirmava, com certo exagero, que ‘se não houvesse balangandãs, torço de seda, e se não houvesse Dorival Caymmi, não haveria Carmen Miranda nem seu sucesso nos Estados Unidos’”. Na necrópole, fiz questão de levar minha solidariedade aos filhos do inesquecível Caymmi: Dori, Danilo e Nana. Ao abraçar carinhosamente a querida Nana, pedi a Deus que enviasse também as melhores vibrações de fraternidade aos demais familiares de nosso amigo: sua amada esposa, dona Stella Maris, os netos e bisnetos do exemplar casal. A jangada “voltou só”, mas Caymmi prossegue navegando pelos mares do universo. E os bons espíritos, nossos anjos guardiães, se incumbirão agora de bem cuidar dele no Céu.
Tudo passa. Mas o povo permanece. Quantas vezes a população expressa mais refinado sentimento do que os seus condutores! Muitos rostos apareceram chorando pelas calçadas. E eu pensava, como pensava um menino de 13 anos naquele tempo… Que será do meu país daqui pra frente?! Depois de vários minutos meditando sobre a tristeza geral e a dor da família Vargas, olhei para o alto e disse de mim para comigo mesmo: Por mais cruel que seja o sofrimento, a vida continua!... Por mais importante que seja um homem, não é maior do que a sua pátria. Tudo passa. Mas o povo permanece (...). Transcorridos alguns dias, uns debochados surgiram com uma brincadeira fora de hora: “— Essa droga de país só tem um jeito! Vamos provocar uma guerra com os estrangeiros… Aí eles vêm, ganham, e estarão resolvidos os nossos problemas…”. Cinismo puro! Ainda bem que a elite de uma nação é o seu povo.
José de Paiva Netto — Jornalista, radialista e escritor. paivanetto@uol.com.br
Última modificação: 00:00 28-11-2008

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